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[Crônica] Greve: Três.
Movimento - 1968 - David Alfaro Siqueiros

[Crônica] Greve: Três.

José Braga – 30.06.2017

 

Sonhavam. Era preciso. Ela esfregou a testa. Ele olhou para o chão. Era ainda escuro, madrugada. Os braços entrelaçados com os de seus companheiros.  Seus corpos formavam uma linha. Estavam juntos no piquete. Eram vários os trabalhadores alí. De distintos fazeres. Trancavam uma das principais vias da cidade, acesso central as maiores empresas da região. O ar estava gelado. O silêncio tomava a todos. Vez ou outra, o ruído de um veículo. Aquela região era árida nessas horas. A iluminação noturna era pouca. Quase não se via a lua, as nuvens carregavam o céu. Os postes, antigos, tinham uma luz precária. A brasa do cigarro se destacava na penumbra. Ela se desprendeu da barreira por um instante para fumar. De canto, um pé na calçada, outro no asfalto. Perdia o olhar nos edifícios ao seu redor. Gostava sempre de observá-los, os traços, o desenho que faziam na paisagem, os materiais. Nunca tinha reparado neles na escuridão. Forçava os olhos. Tentava ver quais linhas se destacavam. Não que entendesse algo de arquitetura, ou coisas do tipo. A verdade é que lhe parecia uma viagem que seus irmãos pudessem construir obras de tamanha monta. Mesmo os menores. Cada uma envolvia tanto trabalho. Achava bonito isso. Por um momento podia esquecer a degradação a qual os trabalhadores que punham tudo aquilo de pé estavam submetidos. Por um momento, apenas. Deu o último trago. A fumaça expelida pelos pulmões invadiu a pequena área iluminada pelo poste, errática. Os estômagos de alguns roncavam. O dele também. Estava querendo mesmo era um café quente. Amargo. Passos. Um jovem passa rápido pela perpendicular. Olhou meio de canto para eles. Estranhou. – É muito novo, nunca viu uma barricada. Falou um companheiro um pouco mais velho. Não muito. Mas costumava dizer que a calvície era prova de sua longevidade. Devagar, a cidade despertava. Os ônibus já corriam as ruas. Logo, começariam a chegar os primeiros trabalhadores na avenida. Ela voltou à linha. Seus corpos se estreitavam. Fechavam-se mais tesos, retilíneos. A avenida parecia pequena para eles. Ele respirou fundo. Essa era a pior hora, ele pensou. Os primeiros confrontos. A possibilidade da repressão. Ela viria, mas não ainda. As fardas deixariam para depois, dessa vez queriam holofotes. Respirou de novo. Ficou com vontade de fumar. Mas perdeu a janela. Agora era preciso estar alí, lado a lado. A barricada tinha mesmo dois sentidos. Ajudar os trabalhadores que estavam em situação mais complicada a aderir à greve. E impedir os outros de furá-la. As pessoas começavam a adentrar a via, logo bateria o primeiro turno do expediente. As faixas ocuparam as calçadas nas laterais da primeira linha do piquete. Faziam duas, e mais adiante dispunham de outras com materiais. Madeirites velhos, pneus, placas de metal, o que desse pra obstruir. Mas, dessa vez, tinham decidido: os corpos na frente. O duro ia ser com os carros. Com os ônibus tinham acertado com os motoristas para não entrarem na via. E logo eles iam parar também. O ar ia ficando rarefeito. Dos que estavam a caminho do serviço, muitos iam se juntando a eles. Não era preciso dizer muito. A vida estava muito difícil e aquelas medidas devastariam a todos. Aos poucos mais filas foram se formando. Outros meio ressabiados davam meia-volta. Uns não sabiam o que fazer. Paravam, sentavam ao meio fio, e ficavam por ali. Nem lá, nem cá. O padeiro o reconheceu. Foi trocar palavra. Era desses que sabia que a greve era a medida necessária, mas se incomodava. Atrapalhava demais ele dizia. Meio sem querer, acabou ficando por ali. É, era a hora de ficarmos juntos, disse a ela. E eles continuavam sisudos, enfileirados. Houve quem tentou passar no chute. Sozinhos não conseguiam, juntaram bolo. Mas, quando avistaram outra linha, e mais uma que se formava com os demais. Foram desistindo. Sorriu. Ele. Ela. Todos. Deu merda quando os carros chegaram. Buzinas. Destrato. Um dava ré e se ia. Outro se indignava. E tinha aquele que ameaçava passar por cima. E um companheiro se machucou nessa. Foi cuidado. E os motores esquentadinhos tiveram que se ver com a ira de suas fileiras. –Respira fundo. –Junta, junta! – Não abre. Gritavam. Ela olhou pra trás. Viu o velho na outra formação. Sorriu. Só com o canto da boca. Assim foi por mais umas horas. As piores ele pensava. Havia ainda uma tensão. As fardas iam chegar. Olhou para os lados. Se deu conta que já não conseguia contar os braços que se enlaçavam alí. Relaxaram um pouco. Um pouco. Foi fumar. Dividiu um café com o amigo que trazia uma pequena térmica. Vieram notícias das outras ações. Boas notícias. Más notícias, também. Ela conversava com o velho. Estavam preocupados, mas serenos. Ele tinha certa alegria. Muito própria. Dele. Todos estavam discutindo naquele momento. Pequenos círculos se formavam. Como num pontilhado oblíquo. Resistir era pouco, ela dizia. Mas, necessário falava o velho. Ele ficou mudo, atento. O assunto era sério. A miséria corria pelas ruas como um visco grosso, e tocava todos de sua classe. O senhor argumentava que aquelas medidas iam destruir tudo. E tudo era pouco que gerações conquistaram. A vida dos antepassados, dos que tombaram, estava em jogo. A troco de quê tinham perecido tantos? Não podiam permitir. Na pequena roda todos concordavam com isso. E depois. Ela se perguntava. Sim, era preciso vencer. Era preciso defender os trabalhadores destes ataques. Não podiam deixar as coisas nas mãos deles de novo. Dos burgueses. E nem daqueles que mesmo vestindo os capacetes dos operários sempre estiveram ao lado da sanha. E depois. Ela não sabia bem. Nem o velho. Nem ele, ou o padeiro. Estavam ali imaginando. Acharam um ponto. Era preciso botar todo o trabalho, todo aquele trabalho que erguiam nas obras, nas vias, nos escritórios, nas fábricas, onde fosse, a serviço da vida. Do viver junto, ela pensou. As coisas não podiam ser mais ao contrário. Olha onde isso tinha os levado. Falava o velho, em voz baixa, serena. Mas como? Não tinham certeza. Discordavam. Mas ele achou algo. Encontrou no pequeno círculo algo firme, mas não conseguia traduzir. Ela também. O fio pensou consigo. Nem tudo estava vazio.

Estavam sonhando, disseram uns pros outros. E ela esfregou a testa. Checou se as pálpebras não estavam coladas nos olhos. Estava acordada. Bem acordada. Ele acendeu o cigarro, e encarou o chão. As botas velhas, as de sempre. Estavam fincados os pés.  Sonhavam juntos. Olharam-se, sérios. Houve um chamado, era preciso formar a linha de novo. Logo começaria o segundo turno de entrada no expediente.   

 

Leia também:Greve: Um” e “Greve: Dois“.

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