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A questão da permanência estudantil e a urgência em desmistificar seus resultados

A questão da permanência estudantil e a urgência em desmistificar seus resultados

Problemas com o sistema de agendamento online, vagas insuficientes e burocratização exacerbada são um dos empecilhos que estudantes enfrentam ao buscar os programas de bolsas estudantis. Os editais de auxílio moradia e assistência estudantil de 2017 abriram logo após o começo das aulas, no entanto são poucos os alunos, principalmente os ingressantes deste ano, que conseguiram realizar o cadastro socioeconômico logo nos primeiros dias. O sistema de agendamento online, como de costume, teve as vagas para agendamento de entrevistas lotadas em poucos minutos e estudantes que já possuem cadastro e precisam alterar suas informações não conseguem agendar entrevistas antes de Abril.

Mesmo com estes agravantes, o edital de seleção das bolsas mencionadas acima encerram nesta sexta-feira (17/03), ou seja, há inúmeros alunos que sequer conseguiram agendar sua entrevista, quiçá finalizar seu cadastro. Com isso, estes perderão o direito de participar da seleção. O argumento apresentado desta vez é de que, como este ano os alunos cotistas são cadastrados automaticamente no sistema da PRAE, logo o prazo dos editais não precisaria se estender tanto. Porém, haja visto tamanha demanda nos agendamentos onlines, é possível perceber que há alunos, para além dos cotistas que ingressaram este ano, que necessitam fazer o cadastro. Podemos citar como exemplo alunos que tem, por direito, acesso às ações afirmativas, mas que passaram na ampla concorrência, logo não seria incluídos automaticamente no novo sistema.

O comitê estudantil de luta pela permanência realizou ontem (15/03) uma roda de conversa para discutir ações práticas para resolver este problema emergente: o curto prazo dos editais supracitados. Nesta conversa os estudantes resolveram entregar um ofício ao reitor – entregue nesta manhã – e realizar uma panfletagem durante o dia de hoje a fim de chamar os estudantes para um ato amanhã às 14hs na frente da reitoria com o intuito de pedir o prolongamento do prazo e a melhoria do sistema de assistência estudantil.

A nova política de cadastro socioeconômico, anunciada nas prévias da volta às aulas, vem com a mesma promessa ilusória que todas as reformas que vêm ocorrendo nos últimos anos trazem consigo: acabar com as filas de atendimento na PRAE e simplificar o processo de cadastro, proporcionando também uma maior “justiça” no acesso aos programas para as frações com rendas mais fragilizadas. Contudo, a efetividade dessas reformas residem em um único fim: impedir novos cadastros e registros nos editais, ocultando, assim, a discrepância que há entre a quantidade de bolsas oferecidas e os estudantes que as buscam. Estes atritos, assim como inúmeros outros, revelam a dimensão da precariedade da política de permanência, que tem sua face revelada em eventos como os do ano passado, onde estudantes tiveram de madrugar inúmeras vezes na porta da PRAE a fim de conseguir uma vaga nos atendimentos, levando ao estopim de terem que dormir na reitoria.

Não é do interesse de nenhuma gestão que o caráter perverso da precariedade da Universidade venha à tona e possa aglutinar a revolta dos que tem se deparado cotidianamente com ela nos corredores das suas salas de aula e departamentos. Não é necessário ir até a sede da PRAE para constatar a carência de bolsas de pesquisa, de infraestrutura, até mesmo em detalhes mínimos como bebedouros nos centros de ensino. A gestão Cancelier compreendeu isso muito melhor do que a gestão Roselane, e não à toa, aprofunda ainda mais radicalmente a política de dificultar o acesso aos programas de permanência  e tenta apaziguar seus efeitos lançando um informe de novo edital às vésperas de um ato que vem para cobrar tal política [1].

De certa forma, a eficácia dessas políticas também reside na forma com que o movimento estudantil vem significando esta pauta na universidade: Ainda que desde 2015 se aponte a urgência em superar o apagamento da realidade precária da permanência estudantil, proporcionado pelo atendimento parcial de pautas históricas dos estudantes como forma de falsear avanços proporcionais à necessidade dessa instituição. Desde o ano passado, parece que uma parcela do movimento estudantil herdou a política do bom mocismo, e entrou em uma disputa de autoproclamação da defesa da permanência, tomando-a apenas em sua expressão útil a sociabilidade do capital – uma política compensatória, focal, com tons filantrópicos. Completamente descolada de um caráter profundo de defesa da universidade pública e da compreensão como um direito amplo de todos que contribuem para o desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão da instituição.

Não que se possa ignorar e negar a urgência de se tratar das manutenções circunstanciais de bolsas, moradia, entre outros programas como cruciais para quem de fato não possui outra forma de se manter na Universidade. Mas porque, restringir a pauta de permanência somente como política para pobres, e os estudantes como meros sujeitos passivos do processo de ensino, não produziu até o momento nenhum avanço efetivo para uma política de permanência real, que possibilita o amplo desenvolvimento intelectual e político dos estudantes. Este horizonte de atuação tem servido somente de véu para a verdadeira política que majoritariamente diversos setores do movimento estudantil tem tocado: a política do controle e fracasso das bases estudantis na luta, que sem horizonte de vitória e espaços honestos de discussão e ação coletiva, sentem-se encurralados a entrarem em suas organizações, já que a prioridade da maioria delas é o acúmulo de estudantes em seu interior e não o avanço da política de massas na Universidade.

É preciso superar e se necessário atropelar esse tipo de prática no movimento estudantil, não somente pelo seu caráter imoral, mas porque efetivamente não proporciona nenhum avanço concreto para a luta por permanência. Não é possível seguir admitindo o jogo de cintura da Reitoria ou de qualquer força política que queira se legitimar em cima desta pauta falseando o seu papel para a defesa da Universidade Pública. Somente com um sentido profundo e radical de defesa da permanência estudantil universal é possível entrar em debate direto com as frações dominantes que veem o amplo desenvolvimento da intelectualidade como um perigo ou querem restringi-la para o uso privado, minando nossas condições de nos desenvolvermos e desenvolvermos esta instituição. Para além de uma política assistencialista, queremos uma universidade para todos!

[1]http://prae.ufsc.br/2017/03/16/previsao-do-segundo-ciclo-de-editais-para-2017-1/

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