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A Mensagem
The Bosses of the Senate, Joseph Keppler, 1889.

A Mensagem

Daniel Friedrich  – 14.12.2016

 

Naquele dia – não se sabe se era terça ou quarta, possivelmente quinta – atipicamente Neide acordou com algumas batidas na porta. Despertada normalmente pelo conchavo do sol pelas frestas e articulações – as juntas­ – que lhe atentavam com dores, nesse dia Neide levantou num salto por outra razão. Ainda estava escuro e tudo seguiria nos trâmites da rotina, não fossem as batidas. Calçou os chinelos, jogou uma água no rosto e correu à porta, sem não antes esboçar algum receio pelo desconhecido que a acordara, por isso a princípio optou pelo diálogo a portas fechadas. Encostou-se próxima à pia e chegou a esquecer das dores nas costas quando se inclinou em direção à porta para entabular a conversa.

 

– Quem é?! – disse Neide.

– Olá senhora, sou emissário do governo e preciso lhe informar sobre algumas decisões recentes. É importante – respondeu o desconhecido.

– Governo? Na minha porta…e a uma hora dessas? Meu amigo, tenho que trabalhar daqui a pouco e isso não é piada que se faça! O que você quer?

– Senhora Neide da Rosa, reitero que a informação é de elevada importância, e prometo ser breve – disse o sujeito.

 

Ao menos não se tratava de uma piada; percebia-se no tom calculado de cada sílaba que o desconhecido ali não estava para brincadeiras. Pelo contrário, a última frase denunciava a severidade da informação que o homem trazia e num movimento irrefletido Neide viu-se abrindo a porta ao desconhecido. Era como se não houvesse alternativa diante da situação a não ser abrir a porta. Quando puxou o trinco e encarou o homem que estava a sua frente, é que percebeu que agira sem pensar após a última frase – abrira a porta a um desconhecido de madrugada num movimento automático; sentiu um tremor na espinha ao se dar conta e, em seguida, num movimento rápido olhou para as próprias roupas duvidando se estava de fato vestida.

 

– Oi? Oi. Por favor, entre. Fique à vontade – disse a senhora que ainda se recobrava do próprio estranhamento.

– Com licença, dona Neide. A questão é simples – disse o rapaz que beirava os 30 ao sentar-se num banquinho do lado oposto ao da pia.

 

Neide, mesmo desnorteada, logo notou o talho recente da lâmina de barbear junto ao queixo pontiagudo daquele homem e, de alguma forma, sentiu-se aliviada quando percebeu o corte. Os traços do rosto assemelhavam-se aos de seu chefe – o Sr. Vilela, dono da firma onde Neide trabalhava.

 

– Claro, estou ouvindo. Enquanto isso, vou preparar um café – disse a senhora já colocando a chaleira sobre o fogão.

– Pois bem, venho em nome do governo informar a senhora que foram feitas algumas mudanças recentemente. Tenho pouco tempo e, por isso, vou poupa-la de enumerar todas, com exceção de uma: sua aposentadoria, Neide. Situações que não cabem discorrer aqui nos levaram a ter de alterar isso, você terá de se aposentar um pouco mais tarde do que prevíamos.

 

O terno impecável e os sapatos lustrados do rapaz haviam permitido deixar de lado alguns questionamentos esperados numa situação dessas, e até o nome do sujeito tornara-se dispensável. Uma vizinha havia contado não fazia muitas semanas sobre um golpe recente na região onde alguns moradores tinham sido assaltados, mas não havia nenhuma menção a ternos e gravatas. Bem, talvez tivesse, mas era difícil recordar agora, e Neide logo repudiou a memória; ela duvidava que aquele homem tivesse qualquer intenção de assalta-la. Mas aposentadoria? A água começou a chiar e Neide percebeu que o homem aguardava resposta.

 

– Não entendi, meu bom rapaz. Porque você está falando da minha aposentadoria? – falou Neide enquanto despejava a água quente lentamente sobre o filtro de café.

– É isso mesmo, senhora. Entre as mudanças recentes do governo está a aposentadoria. Essa mudança era necessária e agora você terá de se aposentar mais tarde. Não há muito o que fazer. Precisávamos disso – respondeu o rapaz.

– Como assim? Mais quanto tempo eu preciso trabalhar além do normal? – disse Neide ao oferecer uma xícara de café.

– É difícil afirmar agora, veja bem, essa não é uma decisão minha, mas do governo; ela é necessária, você precisa entender. Apenas mais alguns anos além do previsto e tudo estará certo. Não é preciso preocupar-se. Não sou capaz de afirmar aqui quantos anos, e entendo a preocupação da senhora. Fui encarregado de transmitir algumas informações apenas e confesso que algumas questões não me foram esclarecidas também. De qualquer forma, a mensagem é esta, a previsão de sua aposentadoria foi alterada, Neide.

– Ok, meu filho, mas eu não compreendo. Contribuo há anos e aguardo todos os dias pelo momento onde finalmente vou conseguir descansar. Tenho dores pelo corpo todos os dias, e minhas costas não me deixam esquecer que o motivo delas não é só a idade – essas mãos aqui já suaram bastante! Paguei todos meus impostos e você já deve ter visto que ninguém aqui vive uma vida de luxo – disse apontando para o pequeno cômodo que misturava cozinha e sala.

– Diga, meu rapaz, quantos anos? Você me acordou de madrugada para me passar uma mensagem pela metade? Que tipo de mensageiro você é? – indagou a senhora.

– Compreendo a vossa preocupação, senhora, mas as informações são essas. Não participo das decisões e, na verdade, nenhum governante participa das decisões. Você não sabia? Essa é uma questão delicada… e não sei se poderia entrar nesse assunto – comentou o homem que logo emendou quando percebeu a testa franzida de Neide – mas compadeço de seu momento e vou te contar: jamais vi qualquer decisão ser tomada por parte dos parlamentares. É uma grande ilusão, minha senhora. Eu sei, é difícil de acreditar.

– Rapaz do céu! O que você está falando? Está cada vez mais difícil te entender. Como não são eles que decidem? E você não me respondeu quantos anos! – retrucou Neide.

– Eu não sei, minha senhora; já deveria ter ido embora. Eu não sei quem decide, nenhum mensageiro tem acesso a isso, mas se escutam boatos. Os parlamentares vivem viajando. Como bom emissário eu não deveria dizer isso, mas já vi o Sr. Vilela lá. Os amigos dele também. Ouvi dizer que eles decidem.

– O Sr. Vilela?! Meu chefe?! Ele nem é político, rapaz – respondeu a senhora dando de ombros.

– Senhora, eu não posso afirmar nada aqui. Entenda, já fui além do que deveria contar. São apenas boatos. Minha única certeza é que não são os parlamentares que decidem, mas você não precisa acreditar em mim. Sobre sua aposentadoria, também ouvi boatos – disse o homem sorvendo o café e preparando-se para levantar.

– Peço que a senhora fique calma, mas ouvi falar que você, verdade seja dita, não irá se aposentar.

– O quê?! Explique melhor isso – disse Neide contendo-se para não cuspir o café que bebia.

– Bem, dona Neide, sinto muito, meu tempo acabou aqui. Preciso ser mais direto e franco com a senhora. Você irá morrer antes de se aposentar. Mudamos a aposentadoria e essa era nossa única opção. Não fomos nós que decidimos, foram eles, o senhor Vilela estava lá; os amigos dele estavam lá. Era necessário, é tudo que sei. Infelizmente a verdade é essa. Tentei atenuar um pouco o que envolve uma notícia dessas, mas devido ao tempo, devo ir aos fatos. Você não irá se aposentar – finalizou o homem ao se dirigir a porta.

– Não vou me aposentar?! Veio até a minha casa de madrugada para dizer uma afronta dessas? E você não vai embora, espere aí – esbravejou a senhora.

– Você entendeu bem. Até mais, preciso ir. Tenha um bom dia e.… bom trabalho, minha senhora!

– Bom trabalho?! Você é muito cara-de-pau, hein! – vociferou a senhora, que com a notícia sentiu um calor súbito de ira e viu as veias do antebraço saltarem. O sorriso largo que não escondia um quê de satisfação nos cantos da boca do homem quando se virou para abanar da porta não lhe poderia passar incólume – a afronta tinha passado dos limites, e a reação foi instantânea: a xícara de café que tinha nas mãos, ainda pela metade, voou com violência na direção do homem.

 

O arremesso acertou o alvo em cheio, a xícara espatifou-se na testa do homem que abanava; metade de café esparramado ao piso e metade queimava o rosto do homem que agora urrava; o sorriso desaparecera enfim. Os cachorros da rua logo fizeram coro a situação e os latidos ecoavam por todo o bairro. Já se ouvia também o corre-corre dos vizinhos e uma gritaria, o sol não havia nascido, mas o bairro estava acordado. A senhora, sem acreditar na situação que se desenhava – com a respiração ofegante – olhou para o homem que ainda gemia e então repousou os olhos ao redor, primeiro pelos detalhes do minúsculo cômodo e então para as mãos que tremiam. Trabalhar até morrer? – pensou consigo mesma. Tornou a encarar o sujeito que ainda não havia se recobrado e por um instante, no meio da confusão, esboçou um sorriso; mas tão logo sentiu a pressão despencar e desmaiou.

 

 

Sentiu o calor do sol aos poucos no rosto e tanto os pulsos quanto os joelhos faziam as honras das dores matinais. Abriu os olhos lentamente e viu o sol pelas frestas marcando o início do dia – fora um pesadelo. Ela ainda tremia e aos poucos foi se levantando, arregalando os olhos e tateando o quarto para entender o que tinha acontecido. Tudo um sonho. Mas ela sentia aquela realidade ilusória nas batidas do coração; estavam frenéticas depois de um pesadelo como esse. Apesar do sonho, ela ainda procurava se acalmar naqueles momentos, por isso calçou os chinelos e foi até a cozinha. Como no sonho, encheu a chaleira e pôs-se a preparar um café. Enquanto a água esquentava, decidiu ligar para sua filha; queria contar para alguém o que se passara. O ritmo do coração começava a diminuir, mas a ansiedade ainda a acompanharia ao longo do dia.

 

– Alô, Claudia? Tudo bem com você? Então, filha, tive um pesadelo estranho essa noite e não estou muito bem, por isso te liguei para conversarmos um pouco.

– Oi mãe, pode falar. Você está bem? O que aconteceu?

– Sonhei que um homem do governo veio até a minha casa para me dizer que eu não iria mais me aposentar. Ele me disse que as regras haviam mudado e, por isso, eu teria que trabalhar até morrer.

– Mãe, isso é muito estranho. Eu iria te ligar hoje para falarmos sobre isso.

– Como assim, minha filha?

– Liga a TV, mãe.

– Só um minuto.

– É verdade, mãe. Se você sonhou, eu não sei, mas é verdade. Vamos ter de trabalhar até morrer. Anunciaram hoje. Foram aqueles porcos, ontem à noite, aqueles políticos nojentos.

– Não é possível, você tem certeza do que está me dizendo, Claudia?

– Tenho, mãe. Aqueles desgraçados querem que a gente morra de trabalhar!

– Não acredito. Calma. Isso não pode acontecer. Eu não sei o que dizer, o sonho…eu lembro. Eu sinto que tinha uma coisa importante.

– O que você quer dizer, mãe?

– Não sei, no sonho o rapaz me contou algo. E eu não sei dizer, mas parecia verdade, sinto isso.

– Lembrei! Isso é coisa do Sr. Vilela.

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