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Agressões homofóbicas no Carnaval: O que estão fazendo com nossas vidas?
Foto retirada do Facebook da vítima.

Agressões homofóbicas no Carnaval: O que estão fazendo com nossas vidas?

Dois casos de violência à LGBT’s em Florianópolis ganharam repercussão Nacional durante o Carnaval: o primeira foi uma agressão por Lesbofobia no Centro da Cidade, na noite do dia 25 de Fevereiro. V. C.* estudante de Filosofia da UFSC, ao sair em defesa de investidas de assédio a amigas que lhes acompanhavam, foi agredida com um soco no rosto; o segundo caso se deu logo na noite seguinte, dia 26/02, com dois homens que trabalham e vivem na Lagoa da Conceição. Ao darem um beijo de despedida no ensaio da Escola de Samba União da Ilha da Magia, no Carnaval da Lagoa, foram questionados, cercados e espancados por membros da Escola de Samba, que nega o envolvimento no caso.

Em ambos os ocorridos, as vítimas receberam uma série de manifestações de apoio, mas o impacto da violência ainda deixa marcas. Voltar à Lagoa, ainda que para trabalhar, foi difícil para L.* nos primeiros dias após a agressão, V. C. ainda procurava reorganizar sua rotina quando entramos em contato. Mesmo assim, os envolvidos sentem a necessidade de dar visibilidade e falar sobre os casos como forma de desmontar a imagem enganosa que a cidade de Florianópolis propaga de ponto turístico “gay friendly”, que tem como prioridade fortalecer o projeto de venda da cidade para o setor empreiteiro e hoteleiro. “Na segunda-feira, dia imediato após a agressão, já retornamos a praça onde a agressão aconteceu para um ato organizado pelo Coletivo Acontece – Arte e Política LGBT. Conversamos com a Diretoria da Escola de Samba que nega participação de gente da sua bateria e conseguimos um tempo de fala no palco, antes do desfile iniciar.” Relata L. para o UàE

As vítimas compreendem esta agressão não como algo individual, mas como a expressão de sintomas profundos de violência que se expressaram no país inteiro, outro motivo para reivindicarem a visibilidade e que a questão seja tratada com seriedade. “Não estou falando de mim, estou falando de NÓS. Nós que sofremos não só lesbofobia, mas também violência de gênero. Porque o apoio e empatia que venho recebendo mostra claramente o epicentro de toda a questão: machismo, homofobia, índices altos de feminicídio e demais opressões que sofremos todos os dias por sermos mulheres.” afirma V. C.

Ao fim do Carnaval, os jornais anunciavam o alarmante número de uma mulher foi agredida a cada quatro minutos no Carnaval do estado do Rio de Janeiro [1].  Aqui em Florianópolis foram recolhidos ao menos seis relatos de casos de violência homofóbica durante o Carnaval [2]. No Ceará, uma travesti de 42 anos, Dandara, foi covardemente espancada até a morte [3]. O que esses dados nos dizem?

L. nos contou os próximos passos do movimento LGBT a partir do ocorrido “Agora, partimos para a organização de rodas de conversas e a criação de uma mapa da violência LGBT na ilha. Cada lugar onde algum(a) de nós foi agredido e violentado será marcado. As pessoas precisam entender que o nosso caso não é algo isolado. É social, conjuntural e precisa ser combatido diariamente em casa, nas ruas, nos parques, na televisão, nos jornais, nas câmaras, assembleias e dentro da sala de aula. A gente precisa de políticas públicas que garantam nossa proteção.”

O que acontece no Carnaval, é um exemplo do que significa a política de Segurança Pública em prática. Sua prioridade não é nem nunca foi de fato resguardar a vida das pessoas, muito menos das marginalizadas e historicamente discriminadas pelas próprias instituições que efetivam esta política. Além da cidade atingir a marca de 40 assassinatos nos primeiros dois meses de 2017 [4], ainda há os relatos de toques de recolher de carnavais populares no Centro, Lagoa da Conceição e Santo Antônio de Lisboa, inclusive com uso de spray de pimenta para dispersar qualquer tentativa de tomar o espaço público como seu [5]. O celebrar e o ocupar a cidade só é permitido nos limites do que não atrapalhe a produção e a ordem que o capital necessita para seguir fazendo o uso que lhe interessa de nossas vidas, ou mesmo as descartando.

Considerando que as violências cotidianas que mulheres e LGBT’s sofrem também estão relacionadas com a violência estrutural do Capital, o chamado de V.C. não deve ser desconsiderado: “Vale lembrar que no dia 8 de março terá a greve mundial das mulheres, nós precisamos ir às ruas e lutar cada vez mais para garantir o mínimo dos nossos direitos como mulheres”[6]. O UàE faz coro ao chamado para a Greve de mulheres e ao slogan “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”, que ganha cada vez mais significado e necessidade de ecoar pelas ruas da nossa cidade, compondo força a este dia de lutas que promete balançar mais de 50 países.

 

* Ambos os entrevistados preferiram a utilização somente das iniciais dos nomes para identificação.

[1] http://oglobo.globo.com/rio/no-carnaval-cada-quatro-minutos-uma-mulher-foi-agredida-no-rio-20999512

[2] https://www.facebook.com/AconteceLGBT/videos/623418047852985/

[3] http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/policia-investiga-homicidio-de-travesti-que-foi-espancada-ate-morte-no-ce.html

[4] http://dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2017/03/homem-e-morto-a-tiros-no-bairro-monte-verde-em-florianopolis-9740204.html

[5] https://www.facebook.com/fabio.bispo/posts/10206753062945415

[6] https://www.facebook.com/8MBrasilSantaCatarina/posts/1659031087736237

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