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Intervenção Urbana de Eduardo Srurz - São Paulo, 1998.

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Daniel Friedrich  – 12.09.2016 – Especial para UàE

 

Terça-feira, 7:23h. Sento-me na última carteira ao lado das janelas. Levo o café à boca despretensiosamente e sinto uma ardência súbita nos lábios, um pouco mais e estaria borbulhando. Lábios e café queimados, não posso deixar de esboçar um leve sorriso pelo início triunfal do dia. Abro um livro e aguardo; os colegas chegam aos poucos, muitos decidiram que seria possível resistir à quarta soneca. 7:36h, um homem de meia idade entra na sala e coloca a mochila sobre a mesa, liga um projetor de imagens e esboça um bom dia como quem também havia queimado os lábios. Os lábios. Muito raramente a língua. Essas pessoas de meia idade dificilmente queimam a língua – um fenômeno enigmático; o folclore da academia é repleto de histórias míticas desses senhores que um dia já chamuscaram as papilas.

7:40h, o sujeito sobe o tablado e – com um olhar que vaga entre o ar condicionado e a última lâmpada à esquerda – principia a falar. A essa forma de discurso parecem atribuir o nome de aula, mas não se precipite a lançar-se imediatamente ao dicionário, visto que é evidente a crise que acomete esses compêndios em nossos tempos; o termo aula é apenas um dos que há muito deixaram de ser atualizados. Infelizmente, – é digno de passagem ressaltar – até os compêndios mais desonestos têm, por vezes, vencido a querela com a realidade, ilusoriamente construindo-a; é uma pena que muitas pessoas vivam vidas de dicionários. Nos círculos acadêmicos mais eruditos costumam chamar essa crise de alienação dos significados. Entretanto, é mister considerar que talvez não haja crise alguma, e que alguns senhores de meia idade estejam apenas a divertir-se às nossas custas.

8:12h. O assunto da aula não é meritório de prolixas explicações; o sujeito discursava sobre psicologia (segundo o próprio). O discurso prossegue; o tom de voz beira o estático, e o falatório flui num continuum de ondas sonoras que se enovelam e se perdem. A inércia do monólogo cadencia as palavras, que aos poucos se aglutinam numa só palavra sem-fim; estou perdido e cada vez mais convencido de que esse senhor está a divertir-se. Ensaio um suspiro. 8:20h, a palestra continua. Contradigo-me e apelo ao dicionário, procuro o significado da palavra significado, e depois busco sentido. Falta uma página, não há sentido. A sala está enfim quase cheia e, no entanto, parece vazia. Ouço ecos de uma voz e questiono minha sanidade. Mais um suspiro, e depois um bocejo; é necessário persistir.

8:31h. Deja vù! As ondas que se reuniam num eco deixam de ser tão estranhas. Questiono-me se o ruído tem alguma relação com algo que havia lido uns dias antes. Aliás, recordo-me melhor agora, li sim. Como teria me esquecido? Havia um texto obrigatório, tratava-se de um artigo usual às aulas; em outros termos, seria um artigo de revisão sobre um artigo de revisão de teorias desenvolvidas por sujeitos dos quais desconhecíamos os nomes e obras. Ou melhor, o texto era um resumo das opiniões de pessoas que um dia já leram artigos que discorriam sobre as críticas a algumas teorias. Ou seja, um texto corriqueiro no dia a dia universitário; um artigo necessaríssimo dizia o e-mail. É possível que as obras originais tenham sido perdidas assim como alguns famosos evangelhos. Suspiro novamente, procuro negar as evidências. O eco some e dá lugar ao som monocromático do discurso, que parece desacelerar aos poucos. Alguém decide ligar o ar-condicionado, está muito quente; percebo minha testa molhada e o som da máquina começa a ressoar pelas paredes. As palavras que antes pareciam uma só começam a se separar. Os intervalos entre os termos aumentam mais e mais. Enfim, distingo cada vocábulo. Psi-co-lo-gi-a. Cada palavra é fragmentada. Cada vocábulo é balbuciado lentamente. A entonação muda, o final de cada frase é acompanhado de uma mudança leve no tom de voz e um retardo na articulação, o que sugere uma interrogação na sentença. Bê-á-bá. Pós-doutores em pedagogia infantil para universitários. Tento, mas não é mais possível negar: todo discurso é um bê-á-bá. Haverá uma prova na semana que vem; bastam os conteúdos resumidos dos slides, diz o sujeito. Recapitulo meus conceitos de conhecimento, aprendizado, aula. Capto o esboço de um sorriso pueril em seu rosto, há prazer no monólogo. Aos seus olhos, somos completos imbecis; ineptos ao diálogo, meros observadores. Atualizem os dicionários. Lembro de O discurso da servidão voluntária. Não somos imbecis, somos servos. Uns poucos desenham letras em seus cadernos, é imprescindível copiar. Isso mesmo, copiar. Repetir. Reproduzir. Imitar. E tudo isso se dá voluntariamente, o monarca não profere uma única palavra de ordem, as rédeas são puxadas no invisível. Tornar-se imbecil é apenas uma consequência da servidão. É um reflexo do ato de obedecer. Copiem! – diz o monarca. Variadas canetas e cadernos surgem – alguns tem pauta, outros não -, e o rebanho caminha absorto para o abate. Manso rebanho de universitários, alimentado com monólogos resumidos e formatados em doses homeopáticas para a absorção de organismos nutridos com estupidez. Um rebanho que não rumina. Nem a comida, nem as ideias. E porque é rebanho, não se revolta. Não debate, aceita. Não dialoga, escuta. Não produz, mas reproduz. Mera cópia da cópia que reflete a incapacidade de refletir. Dali sairão mais alguns tiranos da duplicação. Ressuscitem os mimeógrafos! Em cada caderno há um trecho da tragédia do pensar. Os sofistas, famosos malabaristas erísticos, pelo menos dialogavam, estes senhores se recusam ao debate; deleitam-se com suas próprias vozes. Só a subversão pelo pensar pode salvar o rebanho. Entretanto, a cada dia os monólogos vencem mais batalhas e o futuro torna-se mais previsível. A nuvem do servilismo na educação se estende, vivemos a tragédia do pensar.

9h03. De súbito, uma pausa na parola; problemas no computador impedem a reprodução dos slides. Não é possível prosseguir com a aula e somos dispensados. Antes, a chamada. Alguns outros ainda lutam com os despertadores. Olho pela janela e percebo as marcas de mãos sobre os vidros; o ar úmido desperta os bolores pelos cantos. Ivan? – Ausente. – Ausente? Bem, se você prefere bancar o engraçado, são 4 faltas, portanto. Você está reprovado por faltas. – Obrigado, eu jamais saberia como ser aprovado nesses moldes. Travar conhecimento em um monólogo está além da minha capacidade e da humanidade. Enquanto assim for, estaremos todos reprovados. – disse o aluno em seu âmago. Afinal, tragédias não tem finais felizes. Apesar disso, pensar é um ato de insurreição. Sutil e fundamental. Fim aos tiranos do saber! Há resistência.

 

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