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[Crônica] Greve: Dois.
Estudo para o Mural do Hospital de La Raza. 1952. David Alfaro Siqueiros

[Crônica] Greve: Dois.

José Braga  – 30.06.2017

Era um instante. Às vezes não sabia se devaneio. Esfregou as pontas dos dedos na testa. Como se buscasse manter-se desperta. Fazia isso sem querer. Meio que de hora em hora. Parecia amassar um pouco os olhos. Em meio a todo o cansaço havia uns fios. Cortavam o vazio do cotidiano massacrante. Checou se as pálpebras estavam coladas nos olhos. Estava acordada. Deu um trago no cigarro. Pensou no que tinha a fazer. Precisava passar no guichê para pagar as contas. E tantas miudezas mais. Respirou fundo. – Esquece um pouco, foca. Pensou alto e os lábios mexeram sem perceber. – Empresta o fogo? A voz familiar lhe tocou. Alcançou o isqueiro para o senhor negro, meio careca, com uns poucos cabelos brancos no topo da nuca. Sorriam um para outro. – Quanto tempo. Ele lhe perguntou da vida, ela lhe falou da mesmice, do trabalho, das coisas. Ele lhe contou dos filhos. O mais velho estava na faculdade, a mais nova tirava notas boas. Agora tinha mais tempo pra passar com eles. Com a aposentadoria curta, arranjou emprego na firma terceirizada e se desdobrava para dividir o tempo restante entre os filhos e os estudos que completava. Queria largar o trabalho, mas não ia dar. Sempre falava das crianças, tinha muito carinho por elas. E ela gostava de ouvi-lo. Os encontros eram rápidos e poucos. Sempre nesses momentos. Acendeu mais um cigarro. Conversaram mais um tanto. – Tá foda, hein?! – Tá, né. – Se deixar eles vão acabar com a gente. – É, não sobra nada. – Nem ninguém. As poucas palavras bastavam. Eles se entediam assim. Apagou o cigarro na parede. – Vamo entra? Aguardavam o atraso regimental da assembleia. Hoje decidiriam sobre a greve. Sentou, olhou ao redor. O auditório meio vazio, meio cheio. Com poucas exceções, seus colegas traziam no rosto alguma desesperança. Os diretores do sindicato começavam a falar. Mas, naquele momento, estava mais interessada nas expressões daqueles em sua volta. A assembleia seguia como o habitual, os pelegos da direção, que faziam muito pouco pra chamar os trabalhadores, se lamuriavam pela pouca participação. Ela já sabia de cor o roteiro. Se demorou na face dos que estavam ao fundo. Atentou para o peso que carregavam sobre as sobrancelhas. Estavam todos meio cabisbaixos e, ao mesmo tempo, os dentes se apertavam. As unhas eram sutilmente devoradas. O ar estava espesso. Entre toda a exaustão circulava algo distinto. Tinha visto algumas vezes. Uma impaciência, não sabia bem. No púlpito o jogo continuava, não rejeitavam a greve, mas diziam de como estava dura à situação, os adversários estavam muito fortes, nós éramos tão poucos, ninguém liga pra nada, e por aí vai. Foi falar com os companheiros da oposição. Pensou que também eles estavam enfraquecidos. Também, eles, na qual se incluía, não tinham lotado a assembleia. Parecia que tudo ia meio mal. – É, acho que vai um pouco. Irritou-se com tanta impotência. Não falou sozinha. Havia um burburinho. Todos estavam meio fartos. Sua camarada, socialista, pegou o microfone. – Chega! Foi sua primeira palavra à plenária. Enquanto falava, algo ocorria com os demais. Chegava das vísceras. Meio sem tradução. Tomava corpo. Cada trabalhador ali sabia que não era possível seguir assim. – É greve! Uma voz rouca irrompeu. – Greve já! Gritavam alguns, das laterais. Outros se entreolharam, sérios. Meio descompassado, um coro se formou, dos fundos, às beiras, ao miolo. – É greve! Gritou junto. Olhou para o amigo que sorria sereno. Eram poucos, mas já não estavam sós. Propôs um encaminhamento para o ato. Votaram em bloco algumas ideias. A assembleia acabou. Abraçou o velho. Abraçou algumas companheiras. Tinha que ir, não podia perder o ônibus.   

Do lado de fora, acendeu seu cigarro. Sentia o fio, tênue, fino, cortar o vazio. Deu um trago. Esfregou a testa. Como se verificasse as rugas. Riu do trejeito. Talvez fosse apenas um instante. Mas, sabia. Não era devaneio. Os olhos seguiam bem abertos. Deixou o cigarro queimar pela metade enquanto pensava. Atirou o que restava no asfalto. Correu para o ponto. Não podia perder o ônibus.

Leia tambémGreve: Um.” e “Greve: Três“.

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