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[Crônica] Greve: Um.
Greve - Candido Portinari - Óleo sobre tela, 1950.

[Crônica] Greve: Um.

José Braga – 22.06.2017

 

Diria delírio, se os pés não estivessem tão fincados no chão. Passava tanta coisa em sua cabeça, enquanto tomava o café preto no balcão da padaria e observava pela pequena porta retangular a via empoeirada do centro da cidade. O som ao fundo de seus pensamentos era apenas um ruído embolado. O aparelho televisor trazendo as notícias da manhã, a água quente escorrendo pelo coador, a reclamação retida e cotidiana daqueles que como ele iriam começar mais um dia de trabalho. As pessoas passando apressadas, o calçadão sujo sendo varrido, o trânsito, ruminar lento da cidade despertando. Mas, nada disso o ocupava. Lembrava o companheiro atingido pelo metal frio no que parecia ser uma tentativa assustada de assalto. Pensava no breve sopro de vida da criança recém-nascida. Na terna senhora que ajudou a mãe a o criar, ela que perdera os poucos pertences acumulados em anos de trabalho informal num incêndio pueril. No amigo que estava há meses sem emprego. Em tantos. Nas dores dos seus. Deu um gole no café amargo e a poeira levantada na rua se afastou de seus olhos. Com certo assombro pensou naquele batalhão de pernas que passavam ligeiro em frente à padaria rumo ao começo do expediente. Quantas dores carregavam cada uma delas. Dos seus círculos, suas próprias. E lhe pareceu que aquele seu mundo de concreto e dinheiro era tão pouco afeito a vida. São tantos. Tantas forças consumindo-se a si mesmas para meramente sobreviver. E eram tantas as pequenas dores em cada peito. E o seu se apertou. Um misto de tristeza e raiva.  Os dedos se fecharam sob a palma da mão. Apesar dos casacos e do café quente, estavam doídos do frio. O olhar seguia perdido na porta. Chegavam os ambulantes ao calçadão. Tentava imaginar suas histórias. Lembrou que muitos eram imigrantes lutando pela vida. Lembrou do aniversário do seu amor. Pensou em comprar um adereço por ali. Algo carinhoso. O balconista lhe chamou a atenção. Olhou para ele, o avental sujo. Imaginou desde que horas estava trabalhando, afinal quando abrisse a minúscula padaria os pães deviam estar assados. E ainda era muito cedo. Ele apontava para a televisão. 14 polegadas, pendurada na viga. – Viu?! Bando de canalhas! Passava a notícia de mais um empresário que comprara um juiz, para absolver um político. Balbuciou alguma resposta. O balconista, indignado, continuava, xingava a última geração dos engomadinhos. Se deu conta que já era hora. Tinha se perdido no pensamento. Estava atrasado.  – Amanhã tem assembleia. – Vai  ter greve. Deu uma última mordida no pão prensado. Deixou o dinheiro no balcão e saiu.

Quando chegou a rua, esboçou sorriso. Quanto drama, pensou. Bem que seus amigos mais próximos diziam que era apegado ao estilo. Aqueles minutos transcorreram lentos. Diria delírio. Mas, como num reflexo olhou para baixo. Encarou as botas marrons, meio gastas. Seus pés estavam tão fincados no chão.

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