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[Crônica] Silêncio
Ferro - Cândido Portinari - 1938

[Crônica] Silêncio

José Braga para UàE

Pudera um texto se chamar silêncio? Pudera apenas a palavra calar? Com uma ponta de angústia preferia achar loucura. Mera reação. Sentado no banco de madeira, na tarde nublada e fria. Era melhor parar com essas bobagens. Tinha que ir. Uma brisa cortante e o cigarro aceso. Sentir. Como poderia descrever a si na palavra? O cigarro, o banco, abria o sol discreto entrecortado na nuvem. Pensava: as olheiras fundas, o rosto cadavérico, o mau humor permanente, as entradas alargando a testa. Verniz. Pudera apenas a palavra calar? Dizer o que ainda não foi dito. De todo dito. O que não foi feito. Jamais completado. Ele pensava. Ela. Nós. O que ainda não é. Como poderia dizer? Caber em palavra? Para além da incerteza medrosa do amanhã – marca dos seus dias. Mais que o pão dormido, o café quente, o ônibus lotado, o gerente imbecil, o trabalho precário, o sangue escorrendo no meio-fio, a goteira, o cansaço, o amarelo constrangido do presente. Mais que os muros. Da cidade. Seus. Poderia dizer? Com força o silêncio. Descrever a si – ela, nós. Dizer o que ainda não somos. Todos. Nós. E não está apenas ao alcance. Das mãos. Pudera dizer? Do olhar sereno ao futuro, do que ainda não sabemos ao certo. Do nosso tempo, outro. Do vazio do que não somos. Ainda. Chove. Apaga o cigarro. Calça o sapato. Guarda a ressaca. E vai. Não porque seja possível. Porque o faremos.

Calar o que está apenas ao alcance. Gritar o silêncio do impossível. Nosso fazer.

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