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Ela A Berinjela

Ela A Berinjela

Pedro Leite – 22.08.2016 – Especial para UàE

 

Pegou uma berinjela bem rechonchuda. Era enorme demais. Eram tipo três berinjelas em uma só. Não devia ser das orgânicas. Esses legumes e frutas gigantes devem ser cheios de química e são tão bonitos. Marcela ficava indecisa sobre sua qualidade, mas estava imaginando que no cesto de vime ia ficar parecendo um quadro; e o gosto não devia ser tão diferente assim. Chegou a ficar tempo o suficiente com a berinjela rechonchuda na mão para se sentir, de repente, ridícula. Alguém podia tê-la visto numa espécie de monólogo teatral, no seu olhar fixado naquela curvatura impecável da bundinha da berinjela. Enfiou logo na sacolinha, jogou no carrinho e foi pesar.

Tinha ainda uma certa peregrinação a fazer no mercado, já tinha gasto um tempo e não dava mais para ficar nesse tipo de contemplação minuciosa dos produtos em questão. Restituiu um ar de maturidade, reordenou os pensamentos em torno de um pragmatismo e seguiu adiante na direção das gôndulas, as quais deveria perfazer num ziguezague que cobrisse todo o perímetro de produtos expostos. Só assim não esqueceria nada.

Conforme o carrinho dava pequenos solavancos o talo da berinja, de um verde homogêneo e feições simétricas, emergia a lhe acenar. Ocorreu-lhe: câncer. Talvez tivesse visto essa imagem nas capas de revistas de boa forma, boa saúde, bom corpo, bem-estar, entre outras. Essa gravura com letras garrafais associando transgênicos e câncer atropelou o ordenamento do seu pensamento. Podia ser bonita, ficar na sexta de vime feito um quadro, talvez o gosto fosse até parecido, mas podia matá-la. Deus do céu. Deu meia volta, arrancou da sacolinha e, quando ia repousar o berinjelão mortífero entre as outras, pestanejou. A sua era certamente única, a mais bonita e maior, entre todas as berinjelas singelas que a rodeavam.

Isso a deixou tão cheia de dúvida. Podia ser exagero essa coisa do câncer, meio sensacionalista. E outra: ia ser só mais uma gota no meio de toda a alimentação cancerígena que tinha levado desde que nasceu. Mas se essa berinjela tivesse larva devia ser uma cobra, ponderou. E mais outra: para que tanta berinjela para uma pessoa só?! A não ser que fizesse pra convidados… E ficou assim, com as ideias brigando; e uma terceira ideia chegava e dizia que ela era ridícula por dar importância demais a isso. Disfarçou andando com o carrinho e levando a berinjela no braço, quase como se estivesse embalando uma criança. Mais adiante, muito discretamente, a repousou escondida no fundo e entre umas uvas roxinhas sobre uma bancada.

Isso a aliviou. Mais uma vez. Recompôs o pensamento. Tranquila de procrastinar sua dúvida. Passou meia hora quando virou na esquina para pegar os frios, coisa que sempre deixava por último. Portanto tinha esquecido em absoluto o berinjelão. No ralo do esquecimento também foram todos os pensamentos acerca de uma alimentação mais saudável que deveria levar. Botou um queijo gouda no topo das compras, ficou devaneando como o degustaria, lhe fez salivar. Seguiu para a fila exaustiva do caixa. Tinham dois carrinhos encorpados na sua frente. Quando parecia que a fila ia andar a moça do caixa apertou aquele maldito botão, acendendo a luz pra sinalizar praquele cara que resolve tudo: deu alguma merda. Já era tarde demais para trocar de fila.

Ao chegar o rapaz de patins a operadora do caixa ergueu, não sem esforço, aquele berinjelão roxíssimo e diz, essa senhora aqui esqueceu de pesar. Ele, já tendo entendido, agarrou o legume como uma bola de futebol americano, colocou nos braços e patinou na direção da feira. Marcela ficou hipnotizada vendo o moço quase dobrar a gôndula na direção da feira. Ouviu seletivamente a senhorinha comentando, obrigado mesmo, não queria deixar de levar, nunca vi uma berinjela tão bonita, e trocaram sorrisos a velhinha e a operadora do caixa. E ardeu na Marcela uma inveja tão primitiva que parecia remontar alguma coisa que devia existir antes da infância. Senhor, esqueci uma coisa, guarda pra mim? E antes mesmo que o senhor da fila concordasse a Marcela saiu em passos longos e acelerados pelo flanco esquerdo do mercado. Estava decidida.

Era tarde demais, quando chegou na feira o rapaz dos patins já a tinha ensacolado e fazia seu movimento de retorno, passando ao seu lado e, de súbito, ela depositou o pé em seu caminho. Alguém pensou que era por isso que esses caras usam capacete, afinal há realmente riscos. Apareceu a berinjela esmagada e partida quando o patinador se levantou e a olhou feio. Marcela envergonhada dizia, mil desculpas, mil desculpas. Por dentro fervilhava um alívio incomum.

 

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