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O aborto e as vidas que defendemos!

O aborto e as vidas que defendemos!

Redação UàE – 02.12.2016

 

 

Em um dia de gigantes tragédias para a população brasileira de hoje e de amanhã, uma decisão inédita do Supremo Tribunal Federal pareceu trazer um suspiro de esperança para quem há anos vem buscando esclarecer e defender a questão: aborto até os terceiro mês não é homicídio/crime! Sem demora, o Congresso Nacional vem buscando formas de derrubar a decisão e o debate sobre o aborto reascendeu nas redes.

Discutir o aborto é uma tarefa necessária a todos que sonham com um outro futuro para nossa classe junto à emancipação das mulheres, nesse ponto é muito difícil haver discordância em um campo minimamente progressista. Contudo, ainda se coloca como um desafio aos movimentos ir além da preponderante afirmação que trata a questão como uma escolha e o direito da mulher ao próprio corpo.

Ainda que sejam questões relevantes na defesa desta política, os desdobramentos que esta pauta apresenta são mais amplos, além de exigirem a desmistificação de uma bandeira que supostamente se coloca em defesa da vida – o que não se resolve com simples carteiradas biológicas. Ainda mais para quem defende esta pauta não como um fim em si mesma, mas como parte do caminho para um amanhã onde haja real possibilidade de escolha, para além de uma benesse em um sistema que limita e esvazia escolhas dentro do que lhe convém. Aos e às que lutam por reais chances de viver e escolher!

Quando a vida está no centro da discussão, é preciso apontar quais são nossas reais condições de (sobre)viver como classe! É preciso apontar que existem uma série de reflexões prévias à realização do aborto e consequências posteriores à sua concretização (para além da combatida criminalização). Que de nenhuma forma são ignoradas, pelo contrário, são extensamente estudadas e avaliadas há anos.

Afinal, ainda que proibidos, os abortos acontecem. Para os movimentos não é novidade as pesquisas que apontam isso, para quem não fecha os olhos para a realidade que reside ao lado também não deve ser. Independente da classe social e da crença. Ocorre inclusive em grande número entre as mulheres católicas. O aborto é um dos campeões de estatísticas no nosso país.

Mas se eles ocorrem inclusive entre grupos sociais que oficialmente se opoem à sua realização, o que afinal acontece em nossa realidade? De que se trata essa contradição? É preciso lembrar que muitas das informações e debates relevantes sobre sexualidade, prevenção e desenvolvimento biológico, ainda estão distantes de se desenvolverem com a qualidade e clareza necessárias nas escolas e nos centros de saúde, principalmente da maneira com a qual sonhamos. Os locais de respiro onde isso acontece – e aparecem com uma série de esforços pessoais, ficam perigosamente ameaçados pelos projetos que querem colocar mordaça nas escolas e precarizar cada vez mais os serviços públicos.

Desta forma, não é muito difícil que a moral cristã guie posicionamentos que parecem fazer sentido para uma parcela de nossa classe, onde uma suposta defesa da vida é levantada como inquestionável. Por isso, para além dos números, que também importam, é preciso colocar a contradição na mesa: em nomes de quais vidas e pressupostos se levantam as bandeiras? Já viemos caminhando nos últimos tempos para a necessária lembrança de que para as mulheres pobres e periféricas, não há dinheiro para pagar clínicas privadas, resultando em muitas mortes no processo. As que não conseguem, por diversas razões, abortar, muitas vezes têm de criar o filho sem o mínimo apoio paterno ou mesmo de familiares e amigos (sem cair na comparação esdrúxula entre abandono e aborto).

Contudo, ainda é preciso relembrar a quem interessa que nossas mulheres estejam destinadas a cumprir o papel de reprodução da prole, sem poder projetar e desejar qualquer outro futuro que vá além da dedicação majoritária a esta tarefa – sem desvalorizar de nenhuma forma a existência do desejo em gerar filhos como projeto de vida. Lembrar a quem interessa que os fetos valham muito, enquanto as crianças nascidas, sem condições mínimas de vida, importem tão pouco.

É preciso lembrar que, ainda que este problema preceda o modelo econômico vigente, hoje quem define a moral cristã e o sistema jurídico que querem colocar rédeas no corpo e alma de nossas mulheres, é o capitalismo. Que este é quem define o valor de nossas vidas à serventia e conveniência dos interesses das classes dominantes.

Para que se abra um caminho real e fraterno de diálogo com nossa classe, é preciso apontar nosso real inimigo.
É preciso gritar em alto e insistente som, quantas vezes forem necessárias: Nossos corpos não pertencem ao capital!

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