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[Opinião] A política de segurança de Cancellier: interditar a vida social na universidade

[Opinião] A política de segurança de Cancellier: interditar a vida social na universidade

José Braga – 19.06.2017

Nas últimas semanas a comunidade universitária se deparou com mais um dispositivo alegórico da política de segurança do campus da reitoria de Cancellier, a torre de segurança móvel na praça da cidadania. Trata-se de uma cabine, com câmeras e iluminação própria, sobre uma plataforma de elevação, que estaria em período de testes de acordo com vídeo de propaganda publicado na página pessoal do reitor.

A torre cujos custos para o período de testes, e para possível implantação não foram divulgados foi apresentada como mais uma medida para tornar a circulação no campus trindade mais segura. Seria a cereja do bolo de medidas que vieram a cena pública este ano, como os drones de vigilância, a instalação de mais câmeras, a proposta de acesso as filmagens em tempo real pelo idufsc, a tentativa de instalar uma delegacia no campus. E ainda, as reuniões com o comando da polícia militar para debater a segurança na universidade – prática contínua desde a reitoria de Roselane Neckel.

Na verdade a política de segurança de Cancellier nada faz além de aprofundar, pela dimensão da vigilância ostensiva, a política de Roselane – que inaugurou o fechamento do campus com os portões amarelos em 2013, proibiu a circulação de carros à noite e nos fins de semana e a realização de festas pelos centros acadêmicos. Cancellier mantém e fortalece a política de interdição do campus universitário.

É fato, e já em 2013 discutíamos isso, que a insegurança é um problema candente para a comunidade universitária, com o aumento (desde daquele momento) da incidência principalmente de assaltos e furtos – mas também contando com casos graves de estupros e sequestros. Há anos a UFSC vem se deparando no seu cotidiano com o que o povo trabalhador brasileiro encara há muito: a insegurança pública. E ainda que pasmem os ingênuos, Florianópolis não vive outra realidade.

O que é de se admirar (ou nem tanto assim) é que frente a uma das questões mais sérias da vida cotidiana dos brasileiros, uma universidade não proponha nada além da resposta conservadora e ineficaz de fortalecimento do aparelho repressivo. É isto que fez Roselane, é isto que faz Cancellier. Implementam, em versão soft, a política de vigilância e repressão que meramente criminaliza a pobreza, e a população negra – é a política repressiva e ostensiva na segurança pública que já é aplicada no país inteiro, e cujo efeito do ponto de vista da segurança é gerar nada mais que mais insegurança.

Por outro lado o efeito desta política no campus universitário é interditá-lo à vida social. Nunca como nos últimos anos o campus foi tão morto e alheio às energias da juventude e dos trabalhadores. O povo de Florianópolis, os trabalhadores precarizados desta cidade só estão convidados a entrar com os uniformes das empresas terceirizadas. O efeito desta política é apartar ainda mais estudantes, docentes e técnicos dos demais trabalhadores e jovens da cidade.

E mais a proibição e entrave para uso do campus pelos estudantes tem o sentido de drenar a criatividade para propor outras formas de convívio. Tem o sentido de empurrá-los para o âmbito das relações pasteurizadas: os bares, as hamburguerias, as festas privadas (para aqueles que podem ter acesso, ou ao menos que podem se endividar para ter acesso).

Há pelo menos 4 anos esta política ostensiva não tem efetivamente tornado a universidade um espaço mais seguro. O vazio do campus é apenas o terreno livre para os pequenos interesses particularistas.

 

Leia mais sobre as políticas de segurança no campus:

2013 – A UFSC foi cercada pelo imobilismo

2015 – Candidatura de Cancellier e Alacoque e a gestão da crise

2017 – UFSC e a balela da segurança

 

 

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