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[Opinião] DCE S/A

[Opinião] DCE S/A

José Braga

Um DCE que não passa em salas. Que não vai interromper sua aula. Um DCE que não vai te entregar panfletos. Um DCE que vai defender as parcerias público-privadas. Afinal, nesta crise as empresas podem ajudar. Um DCE que vai estabelecer relação com as empresas.

A eleição para a diretoria do Diretório Central dos Estudantes (DCE 2017-2018) ocorre nos próximos dias. Lendo os programas das chapas e assistindo os debates, algo me chamou a atenção: nesta disputa circulam ideias, como algumas das ilustradas acima, de que o DCE é um mero gestor de demandas dos estudantes.

Estas ideias estão consolidadas principalmente na Chapa 3 – “Z3RO”. E também na chapa 4 – “Pense Diferente”, embora esta chapa por seu vínculo aberto com a reitoria esteja, no momento, enfraquecida. A Z3RO diz sobre si mesma que ela seria a chapa de mudança.

Ironicamente suas propostas são exatamente aquelas que nada mudam na Universidade. Administrar os riscos, aproveitar as oportunidades, realizar processos e produtos que trazem pequenas melhorias, pontuais, laterais, inovar, empreender.

O que está contido na afirmação deste discurso é que o DCE pode ser tratado desta forma exatamente porque ele não tem muito a fazer. A Universidade que vivemos é esta e ela não precisa de mudanças – apenas de melhorias nos pequenos incômodos. Ela precisa ser mais bem gerida, ter uma melhor alocação dos recursos, ter uma ainda maior relação com o empresariado (porque este sim sabe o que é o bom, sic).

Nós precisamos apenas é de mais eficiência. De mais inovação. De mais empreendedorismo. E estas chapas estarão lá, para garantir efetivamente que nada mude e cada estudante possa seguir sua vida. Mas, eles não se preocupam com as “causas sociais”? Claro que sim, e para os “menos favorecidos” a relação com as empresas é a solução. Fundo voluntário para a permanência com o selo de empresa amiga, propõe a Z3RO; Parcerias público-privadas propõem as duas; Gestão inteligente na alocação de recursos, dizem. Isto basta. Isto resolve. E todos poderão viver esta Universidade – a universidade da inovação, do empreendedorismo, da eficiência.

É a Universidade LTDa. E ao DCE caberia azeitar os parafusos para que ela siga assim. Para que todos possam vivê-la assim sem percalços. O DCE S/A. O DCE empreendedor social.

A lógica de seus programas nada mais é do que o fundamento atual da proposição ética dos empresários-empreendedores. Meu ponto aqui não é apenas de realizar esta localização. O que me chama a atenção nestas ideias é que o que elas propõem é muito pouco.

A Universidade pode ser outra coisa. A Universidade pode ser, sim, a instituição que bota milhares de pessoas se debruçando num esforço intelectual para responder aos grandes dilemas do povo deste país. A Universidade pode, sim, pode ter sim uma formação de altíssimo nível voltada para as grandes questões. A Universidade pode sim propor isso a todos os estudantes. A vida na universidade pode ser diferente.

E quando aceitamos que ela possa ser apenas o espaço de reafirmação do que está dado, o que estamos dizendo para as milhões de pessoas que vivem nesse país? Isto não é muito pouco para Universidade?

Isto não é muito pouco para nós?

 

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