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[Editorial] Os independentes e as eleições do DCE

[Editorial] Os independentes e as eleições do DCE

O texto a seguir tem destinatário, trata-se dos militantes independentes de esquerda na UFSC, grupo do qual fazemos parte. Com isso não queremos, de forma alguma, falar em nome do conjunto de estudantes independentes de esquerda, mas iniciar uma reflexão com estes.  

O jogo começou e os dados já estão rolando… A eleição para o Diretório Central dos Estudantes foi marcada para os dias 21 e 22 de junho, o processo de formação de chapas já iniciou. Neste momento crucial, que é o de formação das chapas que vão concorrer, mais do que escolher uma dentre as chapas que se formam é preciso pensar o quadro político que vivemos na UFSC e o papel que nós, os militantes independentes de esquerda, podemos ter nesse processo.

Qual o quadro político da UFSC?

No plano federal as políticas de cortes e de ajustes fiscais são realizadas desde 2011, entretanto foi só em 2015 que estas se aprofundaram, afetando de maneira mais aguda o cotidiano universitário. Nas universidades essas políticas não passaram despercebidas, apesar do esforço das reitorias e dos setores governistas em ocultar as consequências gravíssimas desses cortes.

Desde o primeiro semestre de 2015 já existiam movimentações, atos e manifestações na UFSC. Juntavam-se quase semanalmente estudantes independentes – em maioria negros, na reitoria exigindo o direito a permanência, um dos reflexos das políticas de austeridade do governo.

Nada será como antes foi a chapa de ‘unidade’ da esquerda para as eleições de DCE em 2015. Devido ao tipo de unidade que foi feita, por cima, pelas forças (organizações e partidos políticos), resultou numa chapa com um programa genérico, um programa que poderia concorrer à qualquer eleição, em qualquer data. Não estavam materializados na chapa, e em seu programa, o que estava acontecendo com as universidades naquele momento, nem o que acontecia com os estudantes que eram vítimas da política de exclusão permanente da PRAE. A ‘unidade’, que demorou meses para ser construída, através do Bloco de Lutas, acabou se rompendo logo após as eleições.

Com um programa que não tratava de absolutamente nada do que verdadeiramente acontecia na universidade o resultado não poderia ser diferente, apesar do número expressivo de votos, a chapa foi derrotada eleitoralmente. Poderíamos inclusive dizer que mesmo com o seu discurso moderado, com o seu programa completamente genérico e rebaixado, sem tocar em nenhuma das questões centrais da universidade, a chapa de esquerda não conseguiu ultrapassar os limites da própria esquerda.

O processo de ‘unidade’, forçado, só serviu para atomizar as divergências existentes entre as forças políticas, causando o apagamento de temas importantes. Não se podia por em risco a delicada ‘unidade’ forjada naquele processo. Para ficarmos apenas com alguns exemplos, Nada será como antes não tinha um posicionamento claro sobre as Empresas Juniores, não tocou na questão da privatização do conhecimento produzido na universidade pelas fundações (e seus demais problemas), e citou, apenas tangencialmente, os cortes orçamentários e  os problemas da permanência estudantil. Não a toa, quando chegou a hora da prática da unidade, a fragilidade de um programa genérico ficou explícita: as divergências não discutidas foram cruciais para a ocupação de reitoria por permanência, quando outras prioridades ficaram a frente do avanço nas conquistas de reivindicações, como a construção das eleições de reitoria.

Todo esse processo passado nos põe em questão. Será que é de uma unidade que o movimento estudantil precisa? Se sim, de que tipo? Como forja-la?

De fato, se observarmos os recentes acontecimentos que tem ganhado as manchetes dos jornais, não é difícil concluir que a realidade nos impõe a unidade. É tempo de juntar forças, de união entre aqueles que lutam, para enfrentar o maior ataque a direitos dos trabalhadores e minorias que acontece nos últimos anos.

O governo interino e ilegítimo de Michel Temer promove retrocessos gigantescos que vão desde a ciência e a tecnologia, transformando o ministério de ciência e tecnologia num apêndice do ministério das comunicações, até a cultura, com o fechamento do ministério da cultura e sua anexação da área ao ministério da educação, passando pela reforma da previdência, por mais cortes nas áreas sociais e ataques aos direitos das mulheres.

Assim como os movimentos do campo, os movimentos sindicais e os movimentos das cidades, o movimento estudantil precisa estar unido. Entretanto, não podemos confundir unidade entre os movimentos e unidade dos movimentos com alianças para a conquista do DCE – que foi o que ocorreu nas últimas eleições com a chapa Nada será como antes. Não queremos com isso negar a importância da entidade para organizar e apontar uma direção para as lutas dos estudantes e na universidade, senão reafirmá-la.

O que está em jogo nessas eleições é justamente a disputa entre qual será a direção que a entidade estudantil vai tomar no próximo ano. Não cabe, então, a mesma política de alianças realizada no passado, que apaga as divergências e as diferenças entre os projetos em jogo. É preciso colocar em pauta as questões mais urgentes, a defesa da universidade pública, o corte de verbas e a situação da permanência estudantil.

Nós, militantes independentes de esquerda, não podemos aceitar mais aqueles discursos que falam de trazer o novo, de inovar na forma de fazer política, mas na prática encobrem aqueles que atuam rebaixando as pautas, impedindo a radicalização, e a luta dos estudantes. A inovação na política não pode significar o apagamento e a amenização das contradições que existem na universidade. Uma atuação política de esquerda não pode abrir mão de evidenciar, de deixar exposta, de mostrar todas as situações injustiças, as opressões, e o caráter dependente do país e da universidade.

A juventude, e principalmente os estudantes, querem e necessitam de respostas reais aos dilemas e as contradições que enfrentam. Os estudantes estão dispostos a luta, já deram diversas demonstrações. O exemplo concreto são os estudantes secundaristas que enfrentam polícias e governadores truculentos em seus estados. Em São Paulo foram mais de 200 escolas ocupadas ano passado contra a reorganização, neste ano já há ocupações, para além de São Paulo, por conta da merenda, no Rio de Janeiro, no Paraná, em Goiás, no Rio Grande do Sul e provavelmente enquanto escrevemos este texto estudantes de outros estados estarão se organizando para ocupar suas escolas também.

Uma verdadeira política de unidade passa necessariamente pelos movimentos, pela massa dos estudantes. Foi isso que vimos no início do segundo semestre de 2015. Com os técnicos administrativos em educação e os docentes em greve, os estudantes se organizaram, passaram por cima daqueles que julgavam ser seus representantes e que impediam o crescimento e a radicalização da luta, no DCE ou nos Centros Acadêmicos. Deflagraram greves e paralisações estudantis em cerca de 20 cursos da universidade. Foi um momento importantíssimo, todos os setores em greve se unificaram, forjando o comando unificado de greve que conseguiu realizar assembleia cheias, movimentações por todos os centros de ensino e teve uma grande vitória: unificou o movimento universitário, unificou estudantes e trabalhadores da UFSC, um momento em que foi possível avançar nas formulações da comunidade universitária sobre qual universidade queremos e como vamos nos organizar para lutar por ela.

Se os estudantes estão dispostos a luta, porque continuamos com o quadro de marasmo?

A chave para a compreensão deste fenômeno não se encontra dentro da UFSC. É preciso observar aquelas experiências mais exitosas. E hoje não podemos deixar de notar, que na verdade, são as ocupações de escolas, realizadas pelos secundaristas, o polo mais avançado da luta por direitos. A gurizada dá um banho na galera do movimento estudantil universitário. E é sintomático que esse movimento aconteça longe, distanciado, dos partidos e organizações políticas de esquerda.

É preciso que se diga: A prática medíocre desses partidos e organizações, afastada do comprometimento com as lutas de classes, é um problema para o movimento estudantil. As práticas de autoconstrução, as políticas de recrutamento, de curral eleitoral, o apego a cargos, a gabinetes e o aparelhamento são apenas algumas das características de um modelo de que não serve mais, mesmo que ainda tente-se uma sobrevida usando o velho discurso do novo e da inovação.


Na UFSC alguns casos são emblemáticos e merecem ser citados: Nas eleições do DCE de 2013 uma das chapas de esquerda, a Acabou Chorare, puxada principalmente pelas Brigadas Populares, que hoje puxam Se a UFSC Fosse Nossa, defendeu a instalação de portões e cancelas na universidade¹, ação que abriu as portas para a política de cercamento e policiamento do campus. Já em 2015 outro acontecimento emblemático foi a denúncia, realizada ao UaE, da reunião entre JCA/PCLCP e a reitoria da universidade para conversar sobre a eleição de reitoria², que aconteceria naquele ano. Não seria um problema se a referida organização não estivesse constantemente se colocando como independente e crítica a reitoria, inclusive na ocupação de reitoria que acontecia dois dias antes desta reunião.

Esses acontecimentos são emblemáticos porque condensam boa parte daquilo que achamos que não deveria fazer parte da prática de uma militância de esquerda comprometida com o socialismo. São emblemáticos também porque representam a falência de um modo de atuação que definhou durante anos e hoje está com seus dias contados.

Nós, estudantes independentes de esquerda, não podemos mais aceitar a perpetuação desse tipo de prática. É nosso dever questionar e exigir que estes setores realizem uma autocrítica profunda, sem que isso ocorra, será muito difícil construir a verdadeira unidade, a que é urgente, necessária e não se limita as eleições do DCE. 

 

 

 

¹https://www.youtube.com/watch?v=HkBSmNd2Xsc

²http://ufscaesquerda.com.br/serie-os-restos-do-roselanismo-quem-produzia-o-imobilismo/
A Juventude Comunista Avançando de fato apoiou a candidatura de Roselane (ex reitora) para reeleição:

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